segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Relato de parto de Elaine Müller. Nascimento de Magnólia, em 22 de junho de 2012.


 “Aparentemente em pródromos. Os pedreiros já chegaram.”

Na segunda-feira, dia 18 de junho, fui pela última vez ao meu médico obstetra, que naquela consulta de deu “alta” do pré-natal – o que me deixou bastante indignada. Entrei em contato com a parteira que iria me atender no parto, Tatianne Frank, que ficou de me acompanhar com mais frequência no final da gravidez. No dia 19 eu completei 38 semanas de gestação. E no dia 20 eu acordei disposta a deixar tudo pronto para a chegada de Magnólia. Fui ao shopping comprar algumas coisas, em especial ver se encontrava uma piscina para o parto, e também velas, aromatizantes, absorventes, fraldas, o espumante para o brinde...
Caminhando, comecei a perceber que as cólicas que eu vinha sentindo nas últimas noites começavam a parecer contrações, o que me fazia lembrar do poeta Miró que escreveu “quando o mundo acabou, eu estava no Makro”. Ri sozinha imaginando um relato começando com “quando o trabalho de parto começou, eu estava no shopping”. Fui ao banheiro e percebi que estava perdendo um pouco de sangue. Fui à casa de Tatianne, almocei com ela, conversamos e ela me examinou. As dores pararam e eu voltei para casa, sem a piscina.
Na quinta-feira eu acordei cedo com cólicas, e aos poucos elas foram virando contrações. Liguei para Marcelo, meu marido, que havia saído para buscar os pedreiros que fariam um serviço em nossa casa, avisando que estava começando a ter dores. Como era mais uma de inúmeras tentativas de encontrar alguém para ajeitar o balcão da cozinha, e como não sabíamos se o trabalho de parto engrenaria logo ou não, Marcelo disse que iria trazer os homens mesmo assim. Entrei em contato com Dan Gayoso, minha amiga e doula, cancelando nosso encontro (que era para falar do parto, algumas observações que ela queria fazer sobre o meu plano) e contando que estava com contrações. Também avisei Tatianne, que ficou de vir a minha casa para “pelo menos me trazer a sua piscina”. Dan também combinou de vir a minha casa para me ver.  Então eu as esperava sem necessariamente estar esperando pelo atendimento delas naquele momento. Na verdade, pelas minhas experiências anteriores, eu sabia que poderia ficar dias em pródromos até que o trabalho de parto engrenasse efetivamente.
Marcelo chegou com os pedreiros, devidamente avisados de que eu estava me preparando para o parto domiciliar. Por volta de 11h30, antes que Tati chegasse com a piscina, eu falei novamente com Dan, lhe perguntando se Mariana Portella, outra amiga e doula, também viria, e se ela traria seu material, sua piscina, já que Tati ainda não havia chegado e as contrações agora vinham a cada 5 minutos, ainda pouco doloridas.
Tati chegou por volta do meio-dia, enquanto eu dava o almoço de meus filhos, Lourenço (3a7m) e Francisco (2a3m). A casa que ela encontrou era bem diferente daquela de meu plano de parto, arrumadinha e cheirosa. Havia caixas de louças e alimentos espalhadas pelo chão da cozinha empoeirada, os objetos pendurados pelas paredes da sala continuavam por lá, onde eu havia planejado colocar flores. Os meninos faziam bagunça pela casa, tão barulhentos quanto os pedreiros.
Eu e Tati almoçamos, enquanto Marcelo havia saído para comprar lona plástica para forrarmos o colchão e baldes para enchermos a piscina. Quando ele chegou, com meu primo, o Rasta, eles inflaram a piscina.
Dan e Mari chegaram no início da tarde, e com Tati e as crianças foram lavar a piscina no terraço. Saí alguns minutos de dentro de casa, fui ver Marcelo que estava na casa de meu primo, no mesmo sítio de nossa casa. Voltei e passei as próximas horas entre brincadeiras e cuidado com os meninos e conversas com as mulheres. As contrações não pararam toda a tarde, mas também não se intensificaram muito. Eu caminhava, sentava na bola, rebolava, parava para respirar durante as contrações. Marcelo não ficava muito comigo, estava mais nos bastidores agilizando o pão, o milho, o suco, a infra-estrutura, enfim. Na verdade, eu perguntei e ele me disse que não havia lido meu plano de parto, então eu relaxei e tentei curtir tudo da maneira como acontecesse, porque via que estava tudo absolutamente fora de meu controle mesmo. Vez por outra, meus filhos vinham me abraçar e me diziam “amo você, mamãe”. Agradecia a mim mesma por ter escolhido estar em casa para curtir todo este clima. Não seria simplesmente um parto em casa ou domiciliar, seria um verdadeiro parto doméstico...
Minha equipe amiga foi ficando, ficando, como que esperando ver o que acontecia, a cada hora parece que resolvendo ficar mais uma horinha. Todas moram longe de minha casa, e havia a grande probabilidade de terem que voltar logo que chegassem em casa, ou então de não voltarem a tempo para acompanhar o parto.
A presença das doulas e da parteira me fazia me sentir em mais um “parto rápido demorado”. A presença dos pedreiros me divertia, porque bagunçava todos os meus planos. E a presença dos meus filhos dava a alegria e a ternura que eu desejava para receber Magnólia em nossa família.


“E o teu umbigo ainda em flor vai mexer com o tempo, vai matar a dor, de novo...”

Enquanto os meninos brincavam e espalhavam brinquedos pela casa toda, muita conversa de mulher. Comemos milho verde cozido, colhido naquele dia em nosso sítio. Por volta das 17 horas, Tati aferiu minha pressão e auscultou Magnólia, estava tudo bem. Jantei com os meninos, Marcelo e Rasta, e depois entramos na rotina de sono das crianças, que dormiram no nosso quarto como todos os dias. Deixamos a piscina inflada no quarto dos brinquedos. Francisco acordou chorando algumas vezes, com o nariz entupido, Marcelo dormia mais pesado que ele, e vez por outra eu tinha que ir atende-lo. Tentei dormir um pouco, mas levantei com contrações mais fortes. Deixei que Marcelo continuasse dormindo, enquanto eu curtia o trabalho de parto entre mulheres.
Mais ou menos 23h30 eu fui tomar um banho quente, e sentia as contrações cada vez mais intensas. Tati me examinou novamente. O trabalho de parto evoluía, as contrações estavam bastante doloridas. Dan havia me lembrado de tentar me conectar com um certo prazer que vinha junto com as dores, e naquele momento isto já era possível. Tentei me concentrar o máximo que pude em cada contração, sentindo-a chegar, se intensificar e tomar conta de mim, e depois ir embora. Como ondas do mar, que eu deixava me levarem, sem tentar controlá-las.
Tati ainda me examinou mais uma vez e então entrei na piscina com água quente, que Dan e Mari haviam enchido com mangueirinha e baldes. Era mais ou menos 00h40, me disse Tati mais tarde, e disse também que naquele momento era 4 contrações a cada 10 minutos, durando mais ou menos 60 segundos cada. Como eu não estava prestando atenção em relógios, só sei é que parecia me restar muito pouco tempo para me reestabelecer entre uma contração e outra.
Logo pedi que chamassem Marcelo. Ele arrumou a câmera num tripé e ficou na beira da piscina comigo, segurando minha mão e acariciando meus cabelos, enquanto Dan e Mari se revezavam para fazer massagens nas minhas costas. Marcelo estava tranquilo, talvez um pouco sonolento, e foi reconfortante tê-lo comigo naquele momento.
Senti braços e pernas adormecerem, o que me agoniava um pouco. Tati fez massagens para estimular a circulação. Fiquei parada, esticada, com os pés e mãos apoiados nas bordas da piscina. Quando comecei a me sentir realmente desconfortável com aquela dormência, percebi que estava entrando no expulsivo. Senti a bolsa estourar, eu estava deitada de lado, com o braço direito apoiado no fundo da piscina. Dan me perguntou se estava sentindo os puxos, eu disse que sim, e perguntei se “podia ser daquele jeito”, me referindo àquela posição para parir. Elas me disseram que podia ser como eu quisesse. Isto soa bastante engraçado agora. Eu disse a Marcelo que Magnólia estava chegando, ele me disse que sabia . Tentei continuar respirando e controlar um pouco a forças para evitar lacerações, mas não consegui. Magnólia empurrava, as contrações eram doloridas. Fui girando meu corpo até ficar boiando com a barriga para cima e nesta posição eu fiz a maior força que podia fazer. Senti Magnólia saindo, Marcelo vibrando quando a cabecinha dela apareceu, ela ficou ali alguns segundos, até nascer por inteiro. Eram 2h10. Acho que não demorou 10 minutos desde que percebi que ia parir até o nascimento de Magnólia.
Havia planejado pegar minha bebê sozinha na água, mas fiquei sem conseguir me mexer direito, não sei se pela dormência no corpo, pela dor na coluna que vinha me acompanhando nas últimas semanas, ou se pela profunda emoção que me tomou. Tatianne percebeu que ela estava bem próxima à superfície e muito rapidamente a pegou e entregou-a em meus braços.
Abracei Magnólia bem junto de meu corpo. Tati vestiu a toquinha vermelha na cabecinha dela, e não pude conter o choro. Eu havia escrito em meu plano de parto que tinha certeza que quando a tivesse em meus braços, tudo faria sentido. E naquele momento, com Marcelo ali comigo, feliz e carinhoso, lembrei de tudo o que passamos durante a gravidez, a maneira conturbada como foi encarar a notícia de que a família iria crescer, os problemas no casamento. E sim, tudo fazia sentido. Magnólia era linda, doce, rosada, e passava tranquilidade para meu coração. Sentia-me plena, com a família completa, e tendo superado muitas coisas. Sentia-me mulher, forte, e ao mesmo tempo frágil, ao ver como minha vida fazia sentido a partir da vida daqueles serezinhos que eu havia colocado no mundo.


“Ela é linda!”

Marcelo também estava emocionado, me beijou, acariciou Magnólia, tirou fotos da gente. Então Lourenço chorou no outro quarto e ele foi buscar os meninos. Chegou no quarto com os dois no colo; Lourenço com um imenso sorriso no rosto, Francisco coçando os olhos, com sono.
Lourenço já se aproximou da piscina querendo tirar a roupa para entrar na água, o que desestimulamos. Francisco se assustou com a temperatura da água e disse que tinha queimado o dedo. Depois começaram a ajudar, Chicão tirando as almofadas para prepararem a cama, Lourenço procurando a bolsa com as roupinhas que havíamos separado para vestirmos na bebê. Eles ficaram muito empolgados com a irmãzinha, disseram várias vezes que ela era linda. E Lourenço foi além: “quando Magnólia crescer, ela vai ser adulta e vai matar todos os dinossauros”. “Magnólia, você também é Mulher Gato”. E Chicão: “ela é Mulher Gatinha, mamãe”.
Fiquei um bom tempo dentro da água, sem conseguir me mexer, segurando Magnólia e esperando a placenta sair. Mostrei o cordão umbilical pros meninos, expliquei que a bebê estava grudada em mim ainda.
Com alguma ajuda, me levantei e saí da piscina, me sentando na cama ao lado, que já haviam forrado com plástico e lençóis. Ainda tinha dificuldade de me movimentar, acredito que tenha sido mesmo por conta da coluna, mas me sentia bem. Fiquei um tempo acomodada entre almofadas, Magnólia mamou, e depois me sentei num banquinho de parto para esperar a placenta ser expulsa. Não demorou muito tempo. Aproveitei para urinar. “Você está fazendo xixi, mamãe?”. “Estou, e na bacia da cozinha, Lourenço”. E viva o parto domiciliar!
Marcelo ficou na sala com Magnólia e os meninos, curtindo-se, enquanto Tati me examinava. Sem necessidade de pontos. Depois foi fazer alguns exames e testes em Magnólia, enquanto eu lanchava, ainda na mesma cama. Mari veio me perguntar que eu queria ou não a aplicação de vitamina K; eu disse que não, e ela foi lembrar Tati.
Magnólia chorou um pouco e Lourenço veio me contar, apreensivo, que a titia estava mexendo com ela e a fazendo chorar. Me levantei para vê-la, não havia nenhuma crueldade, só o cuidado do irmão mais velho com a pequena, que já não chorava mais. Não foi exatamente como eu havia pensado – eu escrevi em plano que achava que ela teria muitas oportunidades de ser avaliada na vida, e que a primeira não precisava ser logo ao nascer. Mas não havia tensão alguma no ambiente, tudo me parecia tão harmonioso e cheio de amor... Achei aquela primeira demonstração de cuidado do Lourenço a coisa mais linda do mundo. Agradeci imensamente por estar em casa, pela confiança que eu tinha nas pessoas que estavam ali comigo e pelo amor  que enchia todos os nossos corações.
Fui tomar um banho, enquanto Mari vestia Magnólia. Dan me ajudou. Lourenço achou muito engraçado que eu estivesse usando “fraldinhas”. Depois voltei a amamentar Magnólia, com a família inteira no mesmo sofá. Passava das 5 horas da manhã quando Tati, Dan e Mari saíram de nossa casa. Marcelo me deixou no quarto com as crianças e acompanhou-as até o portão. Quando voltou, Francisco dormia e Lourenço tentava por todas as maneiras dormir ao lado da irmã, o que acabou dando um jeito de fazer no resto da madrugada. Estava completamente apaixonado, e não parava de dizer o quanto ela era linda.

Um comentário:

  1. Oi Elaine! Já tinha lido seu post, mas só agora comento aqui! Mais uma vez gratidão por compartilhar tanta lindeza. Sabe, quando vc disse antes que não tinha sido exatamente como nos planos, eu temi um pouco, mas que alívio ao ver que Magnólia nasceu em casa como esperado, e cercada do amor da família e amigos! O resto é detalhe, e acredite, dentro do plano também!
    O que mais me emocionou no seu relato foi a reação do irmãozinho mais velho, fofo demais! Agora que me preparo pra receber meu segundo em casa, também me pergunto como será a participação de sua irmã mais velha, igualmente nascida aqui, e sinto apenas que quero sua presença. Não posso, ninguém pode, dizer exatamente como será, mas confio que no fim será tudo lindo e um sonho! Agradeço por relatos como o seu que nos ajudam a reencontrar com nossa própria força e confiança!

    Parabéns triplo pra vc! E muito leitinho pra Magnólia e alegrias pros manos e toda a família!

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